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terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Sombras - Edmilton Torres


Ainda na penumbra da manhã que nasce,
Por uma pequena fresta na janela,
Um filete de luz difusa projeta sobre mim todas as sombras.
Mas não são as sombras reais que me incomodam.
As sombras que me atormentam
Embora não possa vê-las, nem sobre elas pisar
São aquelas que não se projetam para o meu exterior
E que obscurecem a minha mente;
Como a ignorância sobre o que ainda não sei...
Os mistérios, se é que existem...
As crenças que me rodeiam, nas quais não acredito...
As crenças que me norteiam, nas quais ninguém acredita...
Os segredos que guardei, e que queimam a minha consciência...
Os segredos que revelei e até hoje me machucam...
As palavras que calei e que hoje gritam dentro de mim...
As palavras que proferi de forma inadequada, e que me foram devolvidas como lágrimas...
São sombras que se movem ao meu redor...
Sombras que a minha luz interior não consegue dissipar por completo.

Lembranças - Edmilton Torres


Hoje decidi varrer a poeira do tempo
Que embaçava as vidraças da minha alma
E descobri um tesouro extraordinário
Um baú de lembranças quase esquecidas:
Troféus de vitórias que não valorizei...
Uma vontade de chorar, que reprimi por vergonha...
Um pedido de perdão, abortado pela prepotência do orgulho...
Uma verdade aprisionada por uma mentira oportuna...
Um elogio não proferido, oculto pelas sombras da inveja...
Uma injustiça não combatida, por covardia ou por fraqueza...
Um remorso, por omissão, mal disfarçado de rancor, para esconder-se da consciência...
Não posso desfazer-me deste meu tesouro
Porque eles me fazem humano
Também não os esconderei mais
Limparei as minhas vidraças com mais frequência
E tentarei conviver pacificamente com as minhas lembranças...

terça-feira, 28 de junho de 2016

Quando o caboclo é valente - Autor: Edmilton Torres



I
Quando a caboclo é valente
Não gosta de se mostrar
Não gosta de confusão
Muito menos de brigar
Mas não tem pena de choro
Nem carrega desaforo
Se alguém vem lhe provocar

II
Foi assim que aconteceu
Com compadre Pedro Oião
Ele estava num forró
Dançando com Conceição
Quando chegou um sujeito
Pisou no seu pé direito
Que quase esmaga o dedão

III
Sentindo uma grande dor
Ele parou de dançar
Esperando que o cabra
Viesse se desculpar
Porém ele não pediu
Desdenhou e até sorriu
E ficou a lhe encarar

IV
Pedro então olhou pra ele
Com seus olhos de carneiro
Observou se o cabra
Estava com algum parceiro
Manjou a situação
E alertou Conceição
Sobre o sujeito encrenqueiro

V
Continuou a dançar
Mudando de direção
E procurou um cantinho
Sossegado do salão
Quando levou um sopapo
Caiu mole feito um trapo
Por cima de Conceição

VI
Tentando manter a calma
Levantou-se devagar
Quando viu o mesmo cara
Sorridente a lhe encarar
Pedro estendeu a mão
E ajudou conceição
Pra ela se levantar

VII
Depois dirigiu-se ao cara
E ficaram frente a frente
Esperou alguns instantes
Depois disse calmamente
E agora por favor
Eu espero que o senhor
Peça desculpas pra gente

VIII
Com o seu ar de deboche
O sujeito lhe encarou
E sem lhe pedir desculpas
Deu-lhe as costas e se afastou
Pedro pegou Conceição
Retirou-a do salão
E para casa a levou

IX
Depois voltou pra o forró
Dirigiu-se até o bar
Pediu uma cachacinha
Quando acabou de tomar
Circulou pelo salão
Procurando o valentão
E viu que estava a dançar

X
Pedro sempre carregava
Para a sua proteção
Um revólver trinta e oito
Amarrado com um cordão
Por debaixo do sovaco
Quando vestia o casaco
Disfarçava o três oitão
XI
Dependendo da coragem
Daquele cabra safado
Talvez não fosse preciso
Um tiro ser disparado
Somente por precaução
Se houvesse precisão
Ele estava preparado

XII
Com calma e sem alarde
Se aproximou do sujeito
Quando o cara percebeu
Largou a dama de um jeito
Que ela se esborrachou
A sua blusa arriou
E ficou mostrando um peito

XIII
Pedro Oião disse pra o cara
Demonstre ser cavalheiro
Ajude sua parceira
E vamos para o terreiro
Eu e você frente a frente
Pra ver quem é o valente
E quem é o pipoqueiro

XIV
Outrora muito arrogante
Ele sentiu a pressão
O riso sumiu da cara
Limpou o suor da mão
Disfarçou a tremedeira
E ajudou a parceira
A se levantar do chão

XV
A seguir fez um sinal
Pra um suposto parceiro
Que estava num tamborete
Brincando com um isqueiro
Acendendo e apagando
E depois saiu andando
Em direção ao terreiro

XVI
Pedro percebeu a trama
Mas muito calmo fingiu
Não esboçou reação
Até que o cara saiu
Olhou enquanto fingia
Se mais alguém o seguia
Porém ninguém o seguiu

XVII
Sem esperar pelo outro
Pedro deixou o salão
Encontrando o tal sujeito
Escondido no oitão
Com a arma engatilhada
Apontou pra o camarada
E disse – Preste atenção

XVIII
Está cheinho de bala
E eu não costumo errar
Só vou falar uma vez
E trate de me escutar
Eu não quero mais lhe ver
Então comece a correr
Só pare quando eu mandar

XIX
O cabra nem esperou
Pedro acabar de falar
Estava tão assustado
Que só faltou se cagar
Desembestou na carreira
Que só se via a poeira
Se espalhando no ar

XX
O outro quando saiu
E não viu o seu amigo
Deu uns dois passos pra trás
Como quem sente um perigo
Então surgiu Pedro Oião
E disse pra o valentão
O seu negócio é comigo

XXI
Pedro já se aproximou
Com o revolver na mão
Enfiou na boca dele
E acionou o cão
O cabra foi se tremendo
O mijo foi escorrendo
Deixando a poça no chão

XXII
Pedro então falou bem calmo
Não sou homem de brigar
Mas não levo desaforo
De quem vem me provocar
Se tu gostas de viver
Então começa a correr
Senão eu vou atirar

XXIII
Nem precisou repetir
O cabra desembestou
Os pés batiam na bunda
E Pedro Oião atirou
Deu um tiro para o alto
O sujeito deu um salto
E na capoeira entrou

XXIV
Pedro então montou na moto
E foi buscar Conceição
Voltou com ela pra festa
E se esbaldou no salão
Forrozou a noite inteira
Feliz com sua parceira
E sem aporrinhação

Fim








sexta-feira, 10 de junho de 2016

A festa de São João que terminou em briga - Autor: Edmilton Torres













    I
A gente lá do Sertão
No mês de junho se alegra
E todo o povo se integra
Pra festejar São João
Faz parte da tradição
E todo mundo respeita
E quando é boa a colheita
Aumenta nossa euforia
Todo ano com alegria
Eu sigo a mesma receita

    II
Mandei limpar o terreiro
Construí uma palhoça
Fui buscar milho na roça
Contratei um sanfoneiro
E mandei um mensageiro
Espalhar na região
Que toda a população
Estaria convidada
Pra uma festa arretada
Na noite de São João

    III
Preparei uma fogueira
Comprei roqueira e rojão
Fiz um tonel de quentão
Cerveja na geladeira
Cachaça na prateleira
Tira-gosto pra danar
Não quis economizar
Para não passar vergonha
Canjica, milho e pamonha
Tinha pra empanzinar


    IV
Assim que escureceu
Eu acendi a fogueira
Botei pra dentro a primeira
Chega a língua adormeceu
A segunda já desceu
Como água mineral
Foi chegando o pessoal
Na maior animação
Eu gritei: - Viva São João!
E fomos pra o arraial

    V
Então Pedro Sanfoneiro
Pegou seu acordeom
Quando o povo ouviu o som
Acabou o converseiro
Cada dama e cavalheiro
Já foi formando seu par
E começaram a dançar
Sem preconceito nem luxo
Foi o maior rela buxo
Que já se viu no lugar

    VI
Alguns estavam dançando
Outros tomando cachaça
Todo mundo achando graça
Se divertindo e cantando
Alguns casais namorando
Fazendo adivinhação
E no terreiro o clarão
Da fogueira crepitando
E o sanfoneiro tocando
Forró, xaxado e baião


    VII
A festa tava animada
Na mesa muita comida
No balcão muita bebida
E a palhoça lotada
A cabroeira suada
E a poeira subindo
Já tinha dama tossindo
Com o cheiro da sovaqueira
E a fumaça da fogueira
Pelas narinas subindo

    VIII
Entrou pela madrugada
Ninguém arredava pé
Já tinha bebum de ré
Tombando pela estrada
Foi aí meu camarada
Que o cenário mudou
Um sujeito se engraçou
Da noiva de Zé Cruela
Queria dançar com ela
Mas a moça recusou

    IX
A moça muito polida
Pediu pra lhe perdoar
Mas não podia dançar
Pois era comprometida
Já tava até de saída
Esperando o companheiro
Que tinha ido ao banheiro.
Sorriu com educação
Fez um aceno de mão
E saiu para o terreiro

    X
O cabra não aceitou
A recusa da donzela
Foi assediando ela
E no seu braço agarrou
A moça se afastou
Mas ele não desistiu
Quando Zé Cruela viu
Que a sua namorada
Tava sendo importunada
Pra cima dele partiu

    XI
Zé Cruela acostumado
A derrubar touro brabo
Pelo chifre ou pelo rabo
Não foi muito delicado
Nem deu tempo ao assanhado
Esboçar uma reação
Quando viu tava no chão
Com Zé Cruela montado
Um olho roxo e inchado
Cheio de escoriação

    XII
O tal do arruaceiro
Que ninguém sabe quem era
Tava com uma galera
Que se ajuntou ligeiro
E partiu como um vespeiro
Pra cima de Zé Cruela
Ele tentou fugir dela
Mas logo foi alcançado
E foi imobilizado
Com uma gravata na goela

    XIII
Amigos de Zé Cruela
Também estavam na festa
Foi um rolo da molesta
Nunca vi briga daquela
O sangue deu na canela
Teve gente que brigou
E até quem apanhou
Sem saber qual o motivo
No final quem saiu vivo
Até que comemorou

    XIV
Eu não podia apartar
Com tanta gente brigando
O cacete foi rolando
Até a justa chegar
A Polícia Militar
De cassetete na mão
Acabou a confusão
Distribuindo porrada
Foi a maior debandada
Não ficou um valentão

    XV
Minha festa de São João
Findou na delegacia
Quando amanheceu o dia
Eu vi a devastação
Minha palhoça no chão
A sanfona arrebentada
Muita garrafa quebrada
Roupa, chapéu e sapato
Espalhados pelo mato
E a comida espalhada

    XVI   
A anfitriã da festa
Rosinha minha patroa
É quem mais amaldiçoa
Tá virada na molesta
Com um galo no meio da testa
Pois ao fugir do cacete
Escorregou num tapete
Que tava no meio da sala
A coitada abriu escala
Com a testa num tamborete

    XVII
Findei o dia quebrado
Só limpando a bagaceira
Tinha brasa da fogueira
Em cima até do telhado
Depois de tudo arrumado
Tomado de frustração
Tomei uma decisão
Que não mudo até morrer
Nunca mais eu vou fazer
Uma festa de São João








CONVITE - LANÇAMENTO DO LIVRO DO POETA EDMILTON TORRES

Caros poetas e escritores

Convido-os para o lançamento do meu primeiro livro solo, intitulado "Espelhos e Janelas", a ser realizado no segundo sábado de julho, dia 09/07/2016, às 20 horas, na Academia Pesqueirense de Letras e Artes - APLA.
Ficarei muito feliz com as suas presenças.
 
Grande abraço,


Edmilton Bezerra Torres

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

A maior parreira do mundo - Autor: Edmilton Torres


I
No quintal da minha casa
Eu plantei um pé de uva
Essa planta quase morre
Num ano em que faltou chuva
Mal ela escapou da seca

Veio a praga da saúva

II
Eu matei tanta formiga
Que quase enlouquecia
Pois quanto mais eu matava
Mais formiga aparecia
Se demorasse mais tempo
Eu juro que desistia

III
A praga de gafanhoto
Que veio logo em seguida
Comeu o resto das folhas
Deixou a planta despida
Coitada dessa parreira
Quase que perdeu a vida

IV
Eu combati gafanhoto
Com as armas que eu tinha
Inseticida, estilingue
Pau de vassoura e galinha
Eu fiz tudo quanto pude
Para salvar a plantinha

V
Peguei todas as formigas
Que consegui ajuntar
Misturei com os gafanhotos
E botei para fermentar
Para usar como adubo
E das pragas me livrar

VI
Podei os galhos mais secos
Depois que a chuva voltou
Botei o adubo na terra
Então a planta brotou
E desse dia em diante
Nunca mais uva faltou

VII
A parreira cresceu tanto
Que cobriu o meu quintal
E continuou crescendo
Num ritmo descomunal
Que num dia ultrapassou
O cajueiro de Natal

VIII
Ela está no Guinness Book
A maior planta do mundo
E também a que mais cresce
Vinte metros por segundo
Porque o adubo usado
Deixou o solo fecundo

IX
A planta também detém
Recorde de produção
Ela bota tanta uva
Que abastece a nação
De uva, passa e vinho
E sobra para exportação

X
No tempo da entressafra
O que se colhe é pouquinho
Pois a parreira produz
Só cem frutos por cachinho
E cada uva espremida
Só dá um litro de vinho

XI
A parreira produz tanto
Em tão grande extensão
Que não tem mais mão de obra
Para colher a produção
E os frutos não colhidos
Foram caindo no chão

XII
Os frutos foram caindo
E aos poucos fermentando
E foram através do tempo
Em vinho se transformando
Em tão grande quantidade
Que o vinho está jorrando

XIII
Construí uma barragem
Para reter a vazão
Construí uma adutora
E puxei a encanação
O vinho vai encanado
Direto pra o garrafão

XIV
Exportando uva e vinho
Criei fama mundial
Já ganhei tanto dinheiro
Que até me sinto mal
E por isso investi
Num programa social

XV
Fiz acordo com a COMPESA
Para usar a encanação
Do fornecimento d’água
E fiz a conexão
Para distribuir vinho
Pra toda a população

XVI
O bom apreciador
Já pode economizar
Para tomar um bom vinho
Não precisará pagar
É só abrir a torneira
Encher o copo e tomar



quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Quem gosta de comer coco/ Fica com cara de quenga - Autoria do Mote: Ansilgus - Autor dos versos: Edmilton Torres



    I
Gosto muito de cocada
De coco na tapioca
Coco na bacalhoada
No beiju de mandioca
Tô me fazendo de moco
Para essa lengalenga
Quem gosta de comer coco
Fica com cara de quenga

    II
Dancei coco no nordeste
Pois coco também é dança
Por causa d’um cafajeste
Eu entrei numa imbuança
Só precisei de um soco
Para encerrar a pendenga
Quem gosta de comer coco
Fica com cara de quenga

    III
Comer coco todo dia
Deixa o cabra empanzinado
Com bucho inchado e azia
Colesterol elevado
Solta peido, arrota choco
E fica meio molenga
Quem gosta de comer coco
Fica com cara de quenga

    IV   
Eu conheci um maluco
Que veio do estrangeiro
Ao chegar a Pernambuco
Tentou subir num coqueiro
Pra ver se o coco era oco
Mas desceu todo capenga
Quem gosta de comer coco
Fica com cara de quenga

           V
Água de coco gostosa
Tomei em Boa Viagem
Com muita mulher formosa
Ali naquela paisagem
Encontrei um cabra broco
Doidinho por uma arenga
Quem gosta de comer coco
Fica com cara de quenga

    VI
Seu José agricultor
Planta coco em seu roçado
Ele não possui trator
Junta de boi ou arado
Limpa mato e arranca toco
Com chibanca e estrovenga
Mas de tanto plantar coco
Ficou com cara de quenga

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

O Jornal Desafio é alegria Uma voz em defesa do Sertão - Edmilton Torres


Homenagem aos 27 anos do “Jornal Desafio” de Serra Talhada - poema de cordel que foi premiado pelo Clube da Poesia Nordestina

Autor: Edmilton Torres

Mote de autoria do poeta Iranildo Marques.


    I
Um jornal, cujo nome é Desafio
Já demonstra que tem grande valor
Divulgando a verdade com amor
Resistindo com garra e muito brio
Nessa luta a ele eu me alio
Pois além de trazer informação
Dos direitos do povo é guardião
E também um parceiro na poesia
O Jornal Desafio é alegria
Uma voz em defesa do Sertão

    II
Um jornal que só vive da verdade
E que nunca se dobra aos poderosos
Que não usa de meios duvidosos
Pra crescer e manter a qualidade
Sobrevive com mais dificuldade
Pra levar uma boa informação
Aos leitores da sua região
Com lisura, isenção e autonomia
O Jornal Desafio é alegria
Uma voz em defesa do Sertão

III
Hoje em dia qualquer sociedade
Que possui um jornal bem atuante
Que está sempre alerta e vigilante
Em defesa da sua liberdade
Com certeza terá mais qualidade
Mais poder, pois detém informação,
Que amplia horizontes e visão
E ajuda a buscar soberania
O Jornal Desafio é alegria
Uma voz em defesa do Sertão




IV
Desafio é exemplo de jornal
Que respeita o direito do leitor
Que defende a verdade com rigor
Em papel ou no modo virtual
Pois é esse o seu grande ideal
De mostrar sempre em primeira mão
As notícias de “Serra”1 e região
Do Brasil e do mundo, dia-a-dia
O Jornal Desafio é alegria
Uma voz em defesa do Sertão

    V
No Sertão não há mais ignorância
O seu povo não é mais atrasado
Todo mundo está bem informado
Porque já não existe mais distância
Entre um fato que tenha relevância
E o lugar onde vive o cidadão
Virtual ou impresso em redação
A notícia lhe chega todo dia
O Jornal Desafio é alegria
Uma voz em defesa do Sertão

    VI
Parabéns Iranildo2 e sua equipe
Pelo esforço tão digno de louvor
De fazer um jornal com tanto amor
Faço votos que a fé não se dissipe
Que o jornal seja forte e se antecipe
Ao futuro com mais inovação
Não desistam da sua vocação
Jornalismo é paixão e ousadia
O Jornal Desafio é alegria
Uma voz em defesa do Sertão

Notas: 1 – “Serra” é o apelido carinhoso da cidade de Serra Talhada.
      2 – Iranildo Marques é o editor do Jornal Desafio.

sábado, 7 de novembro de 2015

Melhor beber só do que mal acompanhado - Edmilton Torres

I
Alfredo ex-amigo meu
Metido a galo de briga
Vivia arrumando intriga
Desde o dia em que nasceu
Mas um dia me meteu
Numa encrenca de lascar
A gente estava num bar
Num bairro bem afastado
Que Alfredo no passado
Costumava frequentar

II
Na mesa ao nosso lado
Tinha uma loura fogosa
Que Alfredo todo prosa
Se mostrava interessado
Eu fiquei preocupado
Pois a lourinha assanhada
Já estava acompanhada
O cara ao lado dela
Era um tanto magricela
Mas tinha a cara enfezada

III
Alfredo foi alertado
Pra deixar a moça em paz
Porque eu vi que o rapaz
Que era seu namorado
Estava desconfiado
Podendo ser perigoso
Ele metido a gostoso
Continuou a paquera
Dizendo que o cara era
Magrelo, fraco e medroso

IV
Mal terminou de falar
A luz do bar se apagou
Na penumbra que ficou
Eu consegui enxergar
Alfredo se levantar
Indo até a mesa ao lado
Eu continuei sentado
Pois enquanto estava escuro
Eu achei ser mais seguro
Ter um pouco de cuidado

V
De repente se escutou
Um grito na mesa ao lado
A moça gritou: _ Tarado!
Um safado me beijou
Foi aí que a luz voltou
Alfredo vinha voltando
Com a bochecha sangrando
A cara toda arranhada
Com a camisa rasgada
E a garota puxando

VI
A essa altura o sujeito
Que a moça acompanhava
Também já se levantava
Pegou Alfredo de jeito
E com um golpe perfeito
Botou o cabra no chão
Mas Alfredo era fortão
E equilibrou a parada
Bateu e levou porrada
E eu ali sem ação

VII
Mas um fato inesperado
Obrigou-me a reagir
Eu vi Alfredo cair
E quase ser esmagado
Pois surgiu de todo lado
Marmanjo de todo jeito
Eram amigos do sujeito
Que junto com a periguete
Calculei uns seis ou sete
Não deu pra contar direito

VIII
Com coragem inesperada
Eu ataquei de surpresa
Sacudi cadeira e mesa
E saí dando porrada
Com a galera afastada
Eu vi Alfredo no chão
Peguei ele pela mão
Arrastei para a saída
Com a turba enfurecida
Vindo em nossa direção

IX
Eu tinha estacionado
Meu carro em frente ao bar
Precisava lá chegar
Se não seria linchado
Alfredo estropiado
Não conseguia correr
Tampouco se defender
De uma nova agressão
Foi uma enorme aflição
Pensei que ia morrer

X
Eis, porém, que de repente,
Deus resolveu ajudar
Porque a luz do lugar
Apagou-se novamente
Foi essa a sorte da gente
E sem nenhuma demora
Nos desviamos na hora
Em direção à janela
E com bastante cautela
Pulamos dali pra fora

XI
Com o buruçu formado
No interior do bar
Nós conseguimos chegar
Ao carro estacionado
Observei com cuidado
Mas eles não nos seguiram
Eu pensei que desistiram
E relaxei a tensão
Ao ligar a ignição
Os caras nos descobriram

XII
Saí cantando pneu
Dei um cavalo de pau
Escutei um au, au, au
De um cachorro que correu
No meio daquele breu
Com os faróis desligados
Saímos desembestados
Sobrei numa curva escura
Bati numa viatura
Que vinha com seis soldados

XIII
Os soldados tinham vindo
Pela confusão no bar
Eu nunca vi tanto azar
Os tiras foram saindo
Com suas armas brandindo
Nos revistaram no chão
Jogaram no camburão
Depois no maior esparro
Um deles pegou meu carro
E seguiu o caveirão

XIV
Quando chegamos ao bar
A luz já tinha voltado
O grupo se dispersado
Ninguém pra testemunhar
Só o dono a reclamar
Que por causa da querela
Metade da clientela
Não pagou a bebedeira
Quebraram mesa e cadeira
E os vidros da janela

XV
Sem ninguém para autuar
O suposto comandante
Não pode lavrar flagrante
Pela confusão no bar
Nós não íamos falar
Que a briga foi com a gente
Depois de tudo o tenente
Já com pouca paciência
Registrou a ocorrência
Somente do acidente

XVI
Além de ouvir sermões
Estou sendo processado
E também já fui multado
Por cinco ou seis infrações
Com tantas complicações
Por culpa do Alfredão
Ele me deixou na mão
Passando o maior aperto
Porque paguei o conserto
Do sinistro camburão

XVII
Naquele maldito bar
Eu não volto nem tão cedo
Quanto à porra do Alfredo
Eu já mandei se lascar
Ele tenta me encontrar
Sempre mandando recado
Eu não quero que o safado
Cruze mais o meu caminho
Prefiro beber sozinho
Do que mal acompanhado


Fim









quarta-feira, 14 de outubro de 2015

SOPOESPES – Quatro anos de prosa e poesia - Edmilton Torres



A cidade de Pesqueira sempre foi pródiga na revelação de talentos literários. Não por acaso foi agraciada pelo Cardeal Arcoverde com o honroso título de A Atenas do Sertão.
Aqui nasceram grandes expoentes da literatura, com maior ou menor destaque no cenário cultural do estado e do país, e outros tantos estão espalhados e/ou escondidos à espera de uma oportunidade e de um incentivo para se revelarem.
Por isso, nós que fazemos a Sopoespes, somos gratos a Maria Rita, por ter trazido consigo, quando veio morar em Pesqueira, a ideia da criação de uma associação de poetas e escritores.
Nunca é de mais relembrar e demonstrar a nossa gratidão, também, a Mariana Freitas, parceira de Maria Rita para tornar realidade o seu sonho, pela dedicação em garimpar e juntar aqueles escritores que em 23/10/2011, participaram da reunião de fundação, bem como a Paula Frassinetti, por ter aberto para nós as portas da Cruzada Feminina de Pesqueira, transformando-a na casa da Sopoespes.
A semente trazida por Maria Rita caiu em solo fértil, germinando tímida, mas crescendo com vigor ao receber a luz e a água das fontes inesgotáveis da cultura pesqueirense.
Hoje, aos quatro anos, não é mais uma tenra plantinha. Criou raízes fortes e um lenho resistente às intempéries desse ambiente de descaso público com a cultura do país.
Por nossos próprios meios, publicamos em 2015 a nossa primeira coletânea de crônicas e poemas, contemplando uma amostra da obra de 27 autores, alguns dos quais, diante das dificuldades existentes nesse meio para escritores desconhecidos, tiveram nesse projeto, a primeira oportunidade de ver publicado um texto de sua autoria.
Somos constantemente convidados para abrilhantar eventos literários na APLA, em escolas e emissoras de rádio de Pesqueira e cidades vizinhas, como Poção e Arcoverde.
A Sopoespes é hoje um patrimônio da sociedade pesqueirense, que tem como alicerce a determinação e o talento dos seus mais de 30 poetas e escritores, que a mantêm vigorosa no presente e projetando um futuro ainda mais brilhante.
Novos e jovens talentos estão sempre ingressando na organização, o que nos dá a certeza da sua continuidade no futuro.
Sinto-me confortável para falar em nome de todos os colegas da Sopoespes, para dizer que estamos felizes e orgulhosos por fazer parte dessa associação e que estamos comprometidos a levá-la bem longe e bem alto no universo da cultura.
Parabéns à Sopoespes, aos seus poetas e escritores pelo grande talento literário e à sociedade pesqueirense, por contar com uma organização voltada para o incentivo e a preservação da sua cultura.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Brasil - Edmilton Torres

Pisarei no teu chão com muito orgulho
Cantarei o teu hino com louvor
Ainda que mãos sujas, porventura te maculem
Nunca irei te negar o meu amor

Tua história é repleta de heroísmo
De um povo viril e de bondade
E da saga dos que foram oprimidos
E que hoje ainda buscam a liberdade

Tantos filhos ilustres já criaste
Perpetuando tua glória às gerações
E no futuro o teu nome irá brilhar
Com destaque entre todas as nações

Tens o belo no relevo, sons e cores
E harmonia entre povos tão diversos
E este apelo me conquista de tal forma
Que te saúdo nestes tão singelos versos